Como já é habito, pouco ou nada se sabe, sobre o projecto de intervenção na Praça e zonas envolventes ao Mosteiro de Arouca.
Um projecto que possivelmente trará transformações profundas na imagem, na estrutura e no desenho da vila de Arouca. Alterando memórias, manipulando traçados e registos em função de um conceito complexo e contraditório de renovação e requalificação urbana.
Intervir onde já temos uma estrutura urbana qualificada e consolidada, numa imagem colectiva que é sem duvida um dos melhores suportes da nossa identidade urbana de vila republicana e progresssista. Uma zona consolidada, com uma forte implantação de massas e volumes que são o produto de uma fabricação local, com relações conceptuais mais amplas; uma espécie de palimpsesto urbano e arquitectónico, onde se pode ver a força do vernacular, a exuberância polifónica do barroco, a racionalidade do traçado geométrico ao serviço de uma poética e de uma plástica neo-classicista. Uma memória, um monumento, um património. Um recurso local ao serviço da qualidade de vida social e cultural.
Os nossos autarcas decidem de forma dogmática intervir num dos ícons da nossa identidade arouquense – a Praça.Mas existe necessidade de mudar a imagem da Praça? Não será mais lógico qualificar e modernizar as infra-estruturas e os equipamentos de suporte às necessidades dos cidadão que usam a dita praça.
É imperativo da democracia participativa abrir um amplo debate sobre a necessidade ou não de intervir na Praça. Independentemente de existirem dinheiros e apoios comunitários para tal efeito. A questão aqui, centra-se na necessidade ou não de intervir de forma a transformar uma pequena parcela da nossa malha urbana, colocando em risco a sua destruição em nome da renovação e da requalificação.
Todo este processo está inquinado. Não tem lógica, não tem suporte, não tem fundamento público fazer a discussão pública de um projecto para a vila de Arouca, sem primeiro se ter alargado o debate de opinião de baixo para cima, de forma aberta e transparente.
Será que o povo de Arouca concorda com esta intervenção?
Não sei. Ninguém sabe. Mas, afirmam os mais radicais e adeptos desta pseudo-democracia representativa, – mas o povo não deu a maioria a esta Câmara. É verdade, mas isso per si, não lhe dá fundamento politico e sociológico para alienar os cidadãos de uma participação aberta e interventiva, que não se limite aos mecanismos formais da dura lex. Aliás, o nosso país e a nossa vila encontram-se com um problema grave de finanças e de sustentabilidade económica, em consequência de uma democracia populista e representativa. Desta forma, seria conveniente que a Exma Câmara de Arouca realiza-se um inquérito a todas as forças vivas arouquenses de forma a colher o maior número de opiniões sobre esta complexa e problemática intervenção, mas a montante da definição e aprovação técnica e política desse mesmo projecto. Estamos, perante, a imposição de um projecto, uma intervenção, uma decisão política de transformar a imagem e a memória da nossa vila e da nossa praça sem prévio consentimento da sociedade arouquense e de todos os arouquenses, independentemente da sua actual residência. Claro, que compreendo, a opinião de alguns residentes de Arouca, mas que não nasceram na nossa terra, não brincaram na nossa praça, não se identificam com este pathos arouquense. Mas, são uma minoria e nem todos são tão insensiveis a esta transformação.
E termino, com esta nota.
Colocar em debate um projecto desta dimensão para um fim de tarde de um dia semana, é impedir que uma boa parte dos cidadãos arouquenses não possam participar nele, porque se trata de uma periodo de horário de trabalho.
O que se quer esconder?
A Câmara socialista está com medo de quê?
Com este horário, vamos ter uma grande parte de funcionários da dita Câmara a assistir, alguns deputados, e possivelmente a sociedade prima pela sua ausência.
No fundo, será essa a ideia? Porque não se escolheu um sábado? Um domingo à tarde? Uma sexta-feira à noite?
Sem duvida, que o Exmo Senhor Presidente dará as devidas explicações na altura certa.
P.S.- Evidentemente, que existem aqueles fiéis, aqueles santos patronos que concordam com este procedimento e com esta prática sacerdotal. Mas, é por vicio, não por defeito…Deve ser por razão de algum passado mal compreendido, ou alguma vocação frustada. Entendemos, mas não toleramos!!!!
{ 2 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Caro amigo Fernando,
Apesar de não concordar com parte do que escreves acho que, com te é habitual, consegues fundamentar as tuas opções. E, no final, é disso que se trata, de fundamentação ou da falta dela.
Tive a oportunidade de estar presente na dita apresentação pública do projecto Polis XXI para Arouca, mais concretamente para a Praça Brandão de Vasconcelos , Alameda da Ribeira (D. Domingos Pinho Brandão) e zonas envolventes do Mosteiro ( Terreiro, parque central e Avenida 25 de Abril).
Tive também aí a oportunidade de expressar a minha posição e de expor as minhas questões. Como também referi ainda estou atordoado com as soluções apresentadas e encontro-me, até porque não tenho os conhecimentos urbanísticos e de planeamento que tu tens, a digerir a informação recebida.
compreendo perfeitamente o argumento da falta de razoabilidade do dia marcado para o efeito e fui com muita pena minha, e presumo com muito alivio por parte do Presidente da Câmara, que não te vi lá.
Entretanto vou continuar a digerir as propostas apresentadas e a ouvir a “vox populi” que, como (quase) sempre, é acertada.
Entretanto, e para que fiques com uma perspectiva geral da intervenção, podes consultar o blog do Prof. Cerca ( do meu mirante).
Abraço amigo,
Luis
Caro amigo Luis Ferreira da Silva,
Fico preocupado depois de ouvir as tuas palavras. Mas, como sabes a nossa vida pública anda de mal a pior. Os nossos governos locais continuam com a cabeça metida na areia, não querem ver; não querem ouvir; não querem falar verdade às pessoas. Limitam-se a lançar obra, mais obra, em cima de mais obras. Obras demasiadas, umas inuteis, outras desnecessárias. Todas elas um encargo presente e futuro. Não existe uma simples lógica de gestão, de programação e de orçamentação…Gastar, gastar…e depois, alguém paga. Aliás, era esta a máxima do Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Arouca. Em relação às viagens e às festas de estadão na Residencial S.Pedro com os seus ilustres fregueses, num puro e insensato egoísmo social. Não existe dimensão de responsabilidade e de ética política para com a gerações futuras…
E coloco a mesma pergunta.
É necessário intervir numa zona consolidada? Os 30% do municipio não seriam mais bem aplicados em infra-estruturas noutros locais do concelho? Melhorar e qualificar o quê? Todo o concelho tem uma rede de infra-estruturas suficiente e eficaz….Claro que não. Entâo expliquem-me esta coisa?
Que falta de bom senso?
Que falta de responsabilidade política?
Um país endividado.
Um país em ruptura finançeira e económica?
Um país em ruptura social….e gastamos dinheiro em obras de fachada…Enquanto o nosso povo vegeta sem emprego sem moral e sem dignidade.
meu caro Luis,
é a politica que temos,
aceita um abraço amigo do
FMR