o Senhor Disse Baixa Densidade…

por fmr em 12 de Janeiro de 2010

Numa entrevista concedida a uma radio o Senhor Presidente de Câmara, falava sobre o problema da resolução do saneamento e do abastecimento de água ao concelho de Arouca. E apontava como um dos grandes obstáculos o facto de Arouca ser um concelho de baixa densidade, isto é, com construção e edificação dispersa pelo território concelhio…
Ora essa!.. Não é o mesmo Senhor Presidente que aprova e defende um PDM que não resolve a mesma baixa densidade, bem pelo contrário até a acentua. Não foi essa a nossa maior critica a este Plano Director Municipal. E perante a nossa insistência, a equipa técnica em discussão pública tendo como representante da C.M.A. o Exmo Vice-Presidente, Doutor Campelo de Sousa, declara que quem vier a seguir que resolva o problema.
Só se pode concluir daqui duas ou três coisas.
Irresponsabilidade, cinismo e negligência política. Patrocinada e aprovada por uma maioria parlamentar na Assembleia Municipal de Arouca, também ela irresponsável, cinica e negligente. Eu e uns quantos votamos contra. O Senhor Presidente votou a favor e patrocinou esta aberração… No fundo o Senhor Presidente não falou verdade aos arouquenses e aos autarcas aí presentes.
Perante a insistência do Senhor Presidente de Câmara, apresentamos três propostas: concentrar, densificar e qualificar o território concelhio. O anacronismo desta politica está na forma como se plantam equipamentos e infra-estruturas municipais em zonas de excelente solo agrícola, e em zonas descontextualizadas e afastadas das pré-existencias e núcleos consolidados. Um atentado à qualidade de vida, ao desenvolvimento económico sustentável e uma ameaça à gestão das finanças e recursos económicos municipais. Com esra postura politica não é possível uma governança política que alavanque arouca para um patamar de desenvolvimento e qualidade de vida.

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A Minha Terra Vai Ficar Bonita…

por fmr em 6 de Janeiro de 2010

MEMÓRIA

“suadade é um parafuso
que tendo rosca, não cai.
Só entra se for torcendo,
porque, batendo, não vai
e quando enferruja dentro
nem destorcendo ele sai…

Quem quizer plantar saudade,
escalde bem a semente
e plante na terra seca
em dia de sol bem quente,
pois, se plantar no molhado,
ela nasce e mata a gente…”

de António Pereira, Poeta Popular Brasileiro / São José do Egito in RURALIA, 4, 1994, pp.166

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EU NÃO VOU…

por fmr em 5 de Janeiro de 2010

Como é lógico e natural não vou participar em mais uma iniciativa de propaganda desta Câmara Socialista…E o desenvolvimento económico e social fica para quando a sua discussão pública?!
do fmr

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Como já é habito, pouco ou nada se sabe, sobre o projecto de intervenção na Praça e zonas envolventes ao Mosteiro de Arouca.
Um projecto que possivelmente trará transformações profundas na imagem, na estrutura e no desenho da vila de Arouca.  Alterando memórias, manipulando traçados e registos em função de um conceito complexo e contraditório de renovação e requalificação urbana.

Intervir onde já temos uma estrutura urbana qualificada e consolidada, numa imagem colectiva que é sem duvida um dos melhores suportes da nossa identidade urbana de vila republicana e progresssista. Uma zona consolidada, com uma forte implantação de massas e volumes que são o produto de uma fabricação local, com relações conceptuais mais amplas; uma espécie de palimpsesto urbano e arquitectónico, onde se pode ver a força do vernacular, a exuberância polifónica do barroco, a racionalidade do traçado geométrico ao serviço de uma poética e de uma plástica neo-classicista. Uma memória, um monumento, um património. Um recurso local ao serviço da qualidade de vida social e cultural.

Os nossos autarcas decidem de forma dogmática intervir num dos ícons da nossa identidade arouquense – a Praça.Mas existe necessidade de mudar a imagem da Praça? Não será mais lógico qualificar e modernizar as infra-estruturas e os equipamentos de suporte às necessidades dos cidadão que usam a dita praça.
É imperativo da democracia participativa abrir um amplo debate sobre a necessidade ou não de intervir na Praça. Independentemente de existirem dinheiros e apoios comunitários para tal efeito. A questão aqui, centra-se na necessidade ou não de intervir de forma a transformar uma pequena parcela da nossa malha urbana, colocando em risco a sua destruição em nome da renovação e da requalificação.

Todo este processo está inquinado. Não tem lógica, não tem suporte, não tem fundamento público fazer a discussão pública de um projecto para a vila de Arouca, sem primeiro se ter alargado o debate de opinião de baixo para cima, de forma aberta e transparente.

Será que o povo de Arouca concorda com esta intervenção?

Não sei. Ninguém sabe. Mas, afirmam os mais radicais e adeptos desta pseudo-democracia representativa, – mas o povo não deu a maioria a esta Câmara. É verdade, mas isso per si, não lhe dá fundamento politico e sociológico para alienar os cidadãos de uma participação aberta e interventiva, que não se limite aos mecanismos formais da dura lex. Aliás, o nosso país e a nossa vila encontram-se com um problema grave de finanças e de sustentabilidade económica, em consequência de uma democracia populista e representativa. Desta forma, seria conveniente que a Exma Câmara de Arouca realiza-se um inquérito a todas as forças vivas arouquenses de forma a colher o maior número de opiniões sobre esta complexa e problemática intervenção, mas a montante da definição e aprovação técnica e política desse mesmo projecto. Estamos, perante, a imposição de um projecto, uma intervenção, uma decisão política de transformar a imagem e a memória da nossa vila e da nossa praça sem prévio consentimento da sociedade arouquense e de todos os arouquenses, independentemente da sua actual residência. Claro, que compreendo, a opinião de alguns residentes de Arouca, mas que não nasceram na nossa terra, não brincaram na nossa praça, não se identificam com este pathos arouquense. Mas, são uma minoria e nem todos são tão insensiveis a esta transformação.

E termino, com esta nota.
Colocar em debate um projecto desta dimensão para um fim de tarde de um dia semana, é impedir que uma boa parte dos cidadãos arouquenses não possam participar nele, porque se trata de uma periodo de horário de trabalho.

O que se quer esconder?

A Câmara socialista está com medo de quê?

Com este horário, vamos ter uma grande parte de funcionários da dita Câmara a assistir, alguns deputados, e possivelmente a sociedade prima pela sua ausência.

No fundo, será essa a ideia? Porque não se escolheu um sábado? Um domingo à tarde? Uma sexta-feira à noite?

Sem duvida, que o Exmo Senhor Presidente dará as devidas explicações na altura certa.

P.S.- Evidentemente, que existem aqueles fiéis, aqueles santos patronos que concordam com este procedimento e com esta prática sacerdotal. Mas, é por vicio, não por defeito…Deve ser por razão de algum passado mal compreendido, ou alguma vocação frustada. Entendemos, mas não toleramos!!!!

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Em resposta ao companheiro Carlos Costa

por fmr em 30 de Dezembro de 2009

As tuas palavras são sempre muito bem recebidas deste lado, quer pela tua capacidade de análise, quer pela tua sinceridade. Mas, meu caro companheiro a vida política é assim. Uns dias estamos, lutamos, fazemos da liberdade a nossa opção.

A minha postura na Assembleia Municipal de Arouca, integrada no Movimento Independente UNIDOS POR AROUCA, foi sempre exercida numa lógica de serviço ao meu concelho.

As minhas opções foram sempre integradas no contexto do nosso Movimento, que manteve durante quatro anos uma coerência, uma disciplina e uma atitude de maturidade política de grande dimensão e elevação. Para isso muito contribuiram os seus lideres Victor Brandão e Afonso Portugal. Arouca esteve sempre no nosso horizonte, no nosso coração. Nunca recuamos, nunca desertamos.

Arouca e os arouquenses estiveram sempre em primeiro lugar. Mas, também gostava de deixar bem claro, que não hà nada para perdoar, nem para esquecer. Servi Arouca, servi o futuro de Arouca. Nunca me movimentei por outros interesses, outros meandros, daí que tenha incomodado muita gente e muitos interesses. Desde a complexidade do PDM de Arouca, ao serviço de interesses que não são os da sustentabilidade territorial e económica concelhia. Desde a forma como se tomaram algumas opções do plano, com as quais discordamos de forma absoluta. Entre muitas outras….

De salientar a forma como se governa um concelho…sem uma visão estratégica integrada em valores sustentaveis.

Gostava de deixar bem definido, que foi a última vez que exerci e me candidatei a qualquer cargo político na e para a minha terra de nascimento – Arouca. Evidentemente, que nestas coisas da política nunca podemos dizer nunca. Mas, como eu não sou político, mas professor, investigador e técnico de planeamento posso perfeitamente afirmar que não volto mais à Assembleia Municipal de Arouca. Já dei o meu contributo, já dei a minha prestação civica. Agora, é o tempo dos outros darem esse mesmo contributo.

Neste momento, estou mais preocupado com a minha cidade – o Porto. Estou a trabalhar sobre a habitação social no Porto e as suas complexidades urbanas e sociais. O Porto também é a minha pátria, a minha terra. Onde estudei, onde cresci, onde amei, onde nasceram os meus filhos, onde lutei e continuo a lutar pela dignidade humana. Seja, nos bairros sociais da cidade oriental em Campanhã, seja na parte ocidental. A minha cidade de granito, de luz, de liberdade, de homens e mulheres livres e democratas.

Não quero com isto dizer, que Arouca não continua na minha alma e no meu coração. Mas Arouca é cada vez menos a minha pátria, a minha terra. Muitos dos meus amigos já partiram de Arouca, deixando um vazio incontornável. A minha geração abandonou Arouca. Na procura de formação, de trabalho e de realização profissional. Arouca agora é vossa. Tratem-na bem e lutem por um futuro sustentável e grandioso.

Nesta lógica, informo os meus amigos que brevemente abandonarei a minha escrita neste blog. Não tenho mais a dizer e a fazer por vós… E se tivesse era coisa humilde e sem dimensão.

Caro companheiro Carlos Costa. Fica-me a mágoa de nunca poder contar contigo na nossa bancada…Mas, o tempo é assim contraditório e imprudente. Pode ser que um dia nos encontremos por aqui ou por aí.
Quem sabe.
Aceita um abraço amigo deste companheiro que contigo partilhou as coisas da política.

do fmr

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De um e de outro lado

por fmr em 18 de Dezembro de 2009

deumladoparaooutro

O ambiente natural, a tranquilidade, o exotismo e o clima associados a uma certa hospitalidade, a uma matriz cultural e a uma gastronomia de excelência fazem de Arouca e do seu concelho uma zona potencialmente importante para a actividade turística.

Claro está, que este tipo de turismo se deve enquadrar numa espécie de Eco-turismo, de Turismo Cultural, de Lazer, recreio e bem-estar. Onde o desporto natureza ocupa aqui também um papel fundamental. O problema é que este tipo de modelo de actividade turística levanta problemas em termos de desenvolvimento social e económico local, numa lógica de desenvolvimento sustentável. Os pontos fortes que enunciamos quando direccionados para uma actividade económica, dependente da lógica do mercado, isto é, da lei da oferta e da procura, transforma estes bens naturais e culturais num produto económico (bem económico) que não se regula pelas leis da conservação e da valorização ambiental, mas pelas leis do mercado e da concorrência.

Sem duvida, que os pontos fortes como a qualidade ambiental e o património cultural de matriz local, são elementos estruturantes de significativa importância no processo de emancipação dos novos produtos turísticos para o concelho e região de Arouca.
Neste contexto, deve-se realçar a importância da definição e implementação de Unidades de Potecção Integral, que abarcam áreas tão diversas e complementares como as estações de interesse ecológico, monumentos naturais, refúgios da vida selvagem, em termos de objectivos e respectivos usos. Como objectivos, a urgência em preservar e pesquisar; preservar os biota (seres vivos) e demais atributos naturais, sem interferencia humana directa ou modificação ambiental (aqui, dar um interesse especial às explorações de inertes, das pedreiras, especialmente para com a realidade complexa e fragil da exploração de Canelas; bem como, com a situação das chamadas pedras parideiras, em processo de banalização e destruição).

A Câmara e a Assembleia Municipal de Arouca deviam definir urgentemente um Plano de Conservação e de Valorização Ambiental para o Concelho de Arouca, de forma a dotar o municipio de regras especificas de conservação de valorização ambiental e patrimonial, endossadas às regras e principios nacionais e integradas nos planos municipais já aprovados e em implementação, como sejam o PDM, PU, etc.

Mas, existe também o outro lado, aquele que entende que toda actividade turística também tem impactos negativos na vida local, nomeadamente nas estruturas socioculturais, económicas, ambientais e naturais. A implementação de um modelo económico local que assente numa actividade turística, em comunidades de pequena e média escala, conduz a mudanças e transformações no sistema sócio-territorial e reduz a complexidade e heterogeneidade destas comunidades. Conduzindo a uma perda de diversidade, de diferenciação e de sistentabilidade social, ambiental e económica.

Esses impactos vão desde a perda de valores culturais tradicionais, ao aparecimento de conflitos entre locais e visitantes. Conduz também a uma sobrevalorização de terras e imóveis, com o consequente aumento do custo de vida, pressões para a super-exploração de áreas turísticas. Os povos locais são atirados para uma linear marginalidade e empobrecimento social e económico. Afastados da partilha e gestão dos bens locais, são remetidos para um empobrecimento redutor. As suas terras transformam-se em parques temáticos ao serviço de capitais e de mercados. Que eles não conhecem e não participam na sua organização e gestão. E consequentemente não beneficiam dos seus lucros. Finalmente, aparecem as alterações da paisagem e da natureza, erosão e destruição do ambiente pelas rotas turísticas.

O turismo ambiental e rural deve desempenhar uma função pedagógica e civica ao serviço dos valores da conservação e da valorização ambiental e ecológica, de referir a importância da educação ambiental e as parcerias com as escolas e os jovens estudantes. Quer na formação de publicos, quer também na implementação de actividade cientifica e cultural.
As comunidades locais devem pensar o território e seu ambiente numa lógica de projectos e parcerias que conduzam a um desenvolvimento integrado e intergeracional.
Mas a actividade turística também é e pode ser um modelo positivo e sustentável, quando integrado nos valores que enunciamos atrás. Se assim for, a actividade turística produz um conjunto de beneficios, tais como investimentos nas infra-estruturas viária, abastecimento, equipamentos médicos e sanitários; criação de emprego qualificado, melhor distribuição da riqueza. Pode patrocinar uma manutenção da paisagem, e um controle da poluição, um auxílio na conservação de áreas naturais e levar a uma maior consciencialização sobre a importância do equilibrio do meio ambiente.

E em Arouca, o que se esta a fazer?
Em que estado se encontra o ambiente e a natureza?
Que medidas para a conservação do território?

Penso que pouco ou nada se fez. Tirando um conjunto e equipamentos turísticos, de apoio à prática turística e não de conservação e de valorização ambiental e natural. Tudo aquilo que se fez foi na lógica de trazer para o visitante algum conforto e segurança; mas desprezou-se o território, o ambiente e o património. Toda a prática turística foi na lógica da ideologia da divulgação e da publicidade de um pacote turístico. Nada se fez na óptica do turismo sustentável amigo dos locais, do ambiente e da natureza. Inclusivamente, a Câmara Municipal de Arouca, associada a outras instituições regionais e locais tem-se desdebrado em cerimónias e sessões de venda de um produto turístico como forma de rentabilizar esse produto no mercado global. Mas, o ambiente e a natureza são essencialmente um bem social e ambiental, um legado geracional que é vital à qualidade de vida daqueles que nascem e vivem neste territórios e não um produto económico inserido numa lógica de capitalismo selvagem de um mercado internacional.

Assim, parafraseando o arouquense e professor catedrático de economia regional Manuel Brandão Alves: “O Desenvolvimento Local É Possível?”

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A Máscara das Identidades

por fmr em 10 de Dezembro de 2009

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Todo o espaço local é um pequeno teatro com um palco, com actores, com enredos e peças bem definidas. As entradas e saídas de cena são sempre marcadas por acontecimentos primordiais, fundadores de trajectos e destinos sociais. Homens de máscaras, pintadas de cores diversas, ocupam as cenas e definem as posições a ocupar no meio da comunidade.

É uma espécie de party. Onde cada um desempenha uma função de representação e de jogo social, erótico e político.

As comunidades são constituidas por membros com um forte sentido gregário, de pertença, alimentado por uma topofilia ao topos fundador da tribo. O elemento principal e primeiro dessa identidade negativa, que se alimenta das diferenças e dos estereótipos.

Um povo, uma comunidade, uma identidade um pathos. Um espaço central define e identifica o seu axis mundi, pode ser por exemplo, o terreiro santo, o lugar sagrado, a praça republicana, o claustro monástico.

Lugares que fundam e dão a conhecer comunidades, elementos construtores de referenciação simbólica e imaginária de sentidos colectivos. Toda a vida em comunidade é marcada pelo tempo e pelo espaço.

Nem o tempo, nem o espaço são construções simbólico-sociais neutras. Esta tudo marcado, ritmado pela ordem e obediencia ao tempo e ao espaço. A acção humana é do reino da ordem, da lista, da disciplina em clara oposição à individualidade e à pessoa em estado de deriva societal. Nestas comunidades fechadas, as identidades são ideologias orgânicamente instituidas pelas instituições que definem os ritmos e os papéis de cada actor, de cada segmento social.

A posição social é determinada pela forma como cada um desenvolve o seu segmento ou rede de poder no contexto da comunidade local. Estes segmentos assentam em ideologias do conforto e da conservação de poderes, de benesses, de posições de poder na sociedade local.

Tudo se passa integrado numa complexa e redutora arquitectura social, que envolve igreja, poderes públicos, poderes particulares, desde as IPSS que detem aqui uma parte substantiva desse facho de poder na organização dos interesses locais.

O mundo local é assim um espaço socialmente pobre e politicamente clientelistico e caciquista. Pobre na dimensão cultural e urbana e conservador no acesso e exercicio dos poderes. Não se recomenda, não se lhe atribui uma dimensão de modernidade e de inovação.

O espaço local sempre foi o espaço e a escala mais protegida pelos regimes fascistas e corporativistas de direita ou de esquerda, pois, viam neles uma forma de instrumento eficaz no recalcamento das liberdades e das democracias.

A vila de Arouca não foge à regra e ainda hoje é bem visivel e até bem viva, as marcas desse passado localista ao serviço de uma utopia rural de comunidades idílicas, uma espécie de paraíso perdido numa ruralidade celeste.
Ainda nos  restam a Feira das Colheitas, os Grupos de Folclore, as Festas Religiosas, As Procissões, As Marchas, etc. Representações imaginárias de uma falsa identidade local e regional.

Uma espécie de pastiche local, embebido numa ideologia grosseira de património associado a uma raça e a uma cultura original. Aqui entra a ideologia do património, do folclore, da tradição e da fantasia.

O mundo local é uma fantasia ao serviço de uma ordem que castra e limita a criação humana. Só nos resta a universalidade cosmopolita tão querida a Kant.

fmr

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Um Buraco no Geopark de Arouca

por fmr em 9 de Dezembro de 2009

geoparqueDepois de uma visita ao mundo da tridimensionalidade da Google Earth, pode em tempo quase real voar por cima da minha terra, ver os picos das montanhas, deliciar-me com a fisionomia das serras. Sentir o olhar de cima, como um falcão perdido por entre nuvens, os céus lindíssimos e deixar-me ir nas correntes cortando as barrocas e caindo a pique nas ilhargas apertadas dos cumes da Senhora da Mó. Saboreando as águas que gota a gota escorrem pelos penhascos e dão de beber a esta imensa natureza.

Depois, mais um desviar de rota, e aqui estou eu a sobrevoar noutra direcção. A paisagem continua imponente e bela. São curvas, são corpos torcidos, musculados pelo tempo, anfiteatros naturais, catedrais esculpidas pela força da natureza.

Todo o sonho tem um pesadelo.

Lá no fundo, entre as duas cristas  da serra   um buraco imenso, dois buracos imensos. Máquinas, destruição, transformação, oportunismo, economia para uns, negócio para outros, laboratório para alguns…

A natureza imaculada está ferida de morte, pela força bruta da civilização da máquina assassina que come, que devora, que mastiga tecidos, fragmentos, memórias, vida.

Mesmo ao lado de um Centro de Interpretação de Geologia, a natureza é esmagada, destruida e transformada em valor económico. E assim, de forma grosseira, rude e abrupta, lá está a mão do homem. A maltratar, a destruir e a transformar a natureza em valor acrescentado que o mercado define e tutela.

Tudo isto em pleno coração do Geoparque de Arouca.

A bem da Natureza e do Homem. Claro

FMR

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Ética e condição Humana

por fmr em 26 de Novembro de 2009

DSC03337Este paper aparece como ilustração pedagógica de implementarmos uma ética e uma estética do limite. Para Eugénio Trias(1999:25) aparece a ideia de que é necessário compreender o que somos através dessa ideia de limite. Como ele diria «somos los limites del mundo».

Neste sentido filosófico, devemos reflectir sobre a dimensão ética da acção e da praxisdo homem no contexto de uma sociedade em crise. Crise de valores, crise ambiental, crise económica, crise financeira e por fim a pior delas todas – Crise Social e Mental.

O nosso país vive hoje numa situação de perda de limite(s), de fronteiras. O mundo social parece-nos como uma realidade plana, vazia, homogénea. Sem fronteiras, sem limites, sem referenciação social e cultural. Uma espécie de produto globalizado ao serviço de um mercado sem alma e sem carácter. O mundo vive fora da sua dimensão social de bem comum. Bem isto a propósito da realidade política do nosso país.

Onde parece que não existe uma noção clara de limite e de fronteira na vida pública. Parece que estamos perante um novo leviathan, que diaboliza e esconjura tudo aquilo que é diferente, alternativo e critico perante um status quopolítico que bloqueia, que ameaça, que ultrapassa claramente as fronteiras da sua acção e praxispolítica. A vida pública tem sido palco de situações, de casos extremamente complexos que colocam em causa o bem estar social, o normal funcionamento das instituições democráticas e enfraquecem a nossa democracia.

O processo da casa pia, o processo freeport, o processo face oculta, entre outros tantos. Estes fenómenos no fundo resultam de uma sociedade assimétrica, onde os que estão por cima, sempre viveram em grande impunidade e sempre gozaram de uma grande protecção económica e política. À sombra dos poderes da republica estas personalidades foram construindo teias, redes, lobbies, ampliando influências e estratégias que de forma tentacular se iam ramificando em células difusas, silenciosas, dominando tudo e todos. Desde os media, aos partidos políticos e chegando também ao mundo económico e financeiro da propria banca.  A opinião pública já fala destes assuntos no café, na escola, na rua e nos media. Faltavam as provas, os casos, os momentos, os actores. Compete àjustiça defender o estado de direito, fora de jogos jurídicos e fora dos formalismos da retórica do direito.

Eis que aparecem inquéritos judiciais, prisões, interrogatórios, nomes, rostos, advogados, carros de grande cilindrada às portas da judiciária e dos tribunais. Gente grande, ilustre, bem vestida e honoravél. Pessoas de bem, que até esse momento decidiam, governavam e aplicavam os dinheiros públicos. No fundo, fica a ideia de que o estado da nação é crítico e preocupante, mas não podia ser de outra forma.

Com esta corja a governar, a liderar, a decidir…que se poderia esperar desta gente? Fica pelo menos a lição a tirar desta triste situação nacional, o estado tem de definir estratégias e arranjar instrumentos que possibilitem os lugares do topo da nação aos mais capacitados, aos mais honestos, a uma espécie de inteligência instruida e doutrinada dentro de uma ética e condição humana de limite e de fronteira.

Mesmo, que isso, implique mais instrumentos judiciais, mais provas, mais cidadania e mais informação e jornalismo critico e acutilante. Todos estes casos, todos estes fenómenos são uma excelente oportunidade para aprofundarmos a nossa democracia e acabar com todos estes canceres que corroem a sociedade de forma transversal. Uma peste que começa no local e acaba no global.

A corrupção mina a sociedade, mina a democracia desacredita as sociedades e proporciona o aparecimento de fenómenos populistas. Todos estes casos demonstram como o nosso país durante décadas foi desgovernado e esteve ao serviço de interesses que não a economia social e o bem publico. Tivemos um país, um território em constante estaleiro de obra pública, desde as auto-estradas, os estadios, as barragens, os equipamentos, as infra-estruturas, os metros, as expos, as capitais da cultura, as casas da musica, os auditórios, etc.etc. Um maná para todos aqueles que especulavam, que agiotavam, que de mais-valias em mais-valias, alimentavam poderes, interesses e clientelas.

Onde as promiscuidades entre o sector económico-financeiro e a vida politica e pública se confundiam de forma descarada, sem pudor e sem limites. As fronteiras desapareciam, os limites entre a acção política e o mundo financeiro esbatiam-se e confundiam-se.

A promiscuidade chega também ao mundo da imprensa e da informação em geral, com relações complexas entre gabinetes ministeriais e redacções de jornais nacionais, regionais e locais. A irracionalidade é total, levando a situações de verdadeira ruptura social e política.

Estamos num caco, não podemos descer mais, agora fica-nos a vontade de renascer das cinzas.

Construindo um país, uma nação, uma sociedade do grau zero. Tanto foi o mal que fizeram ao meu país.

do fmr

 

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Norte ao Desnorte!

por fmr em 11 de Novembro de 2009

Uma-maneira-de-escapar-20071A Região Norte está a passar por uma complexa crise económica e social, que tem a sua origem num conjunto de constrangimentos de natureza estruturante, isto é, uma região que promoveu um modelo de desenvolvimento económico e social baseado em baixos salários, em deficiente formação técnica, tecnológica e cultural.

Que fez dos salários baixos um factor de competitividade no contexto dos mercados internacionais e ocidentais.

Uma região que apesar da nossa adesão à União Europeia (1986) não soube na altura certa mudar de paradigma e de modelo. Não podemos esquecer que com a nossa adesão à UE, Portugal teve acesso aos Fundos Estruturais (cerca de 50 mil milhões de euros em 20 anos), e não nos podemos esquecer que durante os anos de 1986-1991 e 1995-1999, Portugal ultrapassou com frequência o crescimento médio da zona euro.

Mas é também a partir do ano de 2000 que Portugal e a Região Norte, sofrem um recuo económico e assiste-se mesmo a um abrandamento da nossa economia, entrando mais tarde em recessão no pico da crise financeira associada ao subprime americano. Os níveis de rendimento e de crescimento entram em valores negativos e bastante preocupantes.

O desemprego acelerado com o encerramento de unidades empresariais a um ritmo assustador colocam a região norte numa situação de ruptura social.

A aposta feita numa economia de baixos conhecimentos e a ausência de uma modernização empresarial conduziram a nossa região para uma lamentável situação de empobrecimento crónico e ciclico.

Vale apena referir que em relação à taxa de crescimento real do PIB em Portugal durante os anos de 1986 e 2005, verifca-se por exemplo, que os anos de maior crescimento do PIB nacional decorreram nos anos de 1987 e 1995, acima da Espanha e da Grécia tendo como referencia a zona euro, excepto o caso da Irlanda.

Mas mesmo neste caso, o nosso PIB ultrapassa o da Irlanda durante os anos de 1986 a 1989. Duas situações de crescimento excepcional no contexto da zona euro. A partir daqui é sempre a descer, atingindo valores preocupantes entre 1992-1993 e em 2002-2003; a situação é ainda mais grave a partir de 2005(cfr.OCDE Factbook,2007).

 A taxa de desemprego sobe bastante a partir de 2001 atingindo em 2005 os valores de 9% e actualmente refere-se que andará nos problemáticos 10 a 11%. Uma situação de profunda crise social e de ruptura assistencial num tempo muito breve.

Mas nesta Região Norte as disparidades e as assimetrias também existem de forma a agravar o fosso entre os concelhos urbanos do litoral e os concelhos rurais do interior que pertencem a esta região.

Por exemplo, as disparidades são muito facéis de identificar nos níveis de rendimento e na capacidade de alavancar sinergias para fazer face a uma crise mais ou menos estrutural. As vilas, os concelhos, as cidades não possuem todas as mesmas características naturais, como por exemplo, recursos naturais  (tendências demográficas, acesso aos mercados globais), ou recursos económicos (nomeadamente recursos humanos, um mercado de trabalho eficiente, especialização industrial ou capacidade de inovação).

Assiste-se ao acentuar desta dicotomia vertical entre um litoral urbano denso e dinâmico e um interior rural desertificado, velho e em declínio. A vila e o concelho de Arouca integram-se neste Portugal interior, deprimido, velho e despovoado. Uma região que não é de fronteira, mas também não é do interior.Um território encostado a uma serra esquecida em algures por aí.

Arouca também sofreu com o acentuar desta crise internacional, com o encerramentos das industrias do calçado, com a crise a construção e com a deslocação de unidades industriais para outras bandas.

Uma vila que depende do financiamento exterior, numa percentagem que rondará os valores aproximados de mais ou menos 75% a 80%. Dinheiros que chegam a Arouca por via do Estado Português ou dos Fundos Estruturais da União Europeia.

Uma economia insustentável própria de regiões rurais, com uma população e uma mão-de-obra pouco qualificada, a trabalhar nos sectores dos têxteis, vestuário, e industria do calçado e no sector da construção. Sectores muito pouco qualificados e muito pouco competitivos no contexto da UE.

Arouca tem uma situação de proximidade e de ligação institucional e administrativa à AMP, sendo membro de pleno direito. Esta situação pode abrir possibilidades e patrocinar investimentos estruturantes para a região e para o concelho. O centro do Porto e o Grande Porto podem e devem funcionar como uma alavanca para estas vilas das chamadas regiões rurais.

 

P.S.- Imagem “Uma Maneira-de-Escapar” (2007) da Escultora Mónica Oliveira

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