Este paper aparece como ilustração pedagógica de implementarmos uma ética e uma estética do limite. Para Eugénio Trias(1999:25) aparece a ideia de que é necessário compreender o que somos através dessa ideia de limite. Como ele diria «somos los limites del mundo».
Neste sentido filosófico, devemos reflectir sobre a dimensão ética da acção e da praxisdo homem no contexto de uma sociedade em crise. Crise de valores, crise ambiental, crise económica, crise financeira e por fim a pior delas todas – Crise Social e Mental.
O nosso país vive hoje numa situação de perda de limite(s), de fronteiras. O mundo social parece-nos como uma realidade plana, vazia, homogénea. Sem fronteiras, sem limites, sem referenciação social e cultural. Uma espécie de produto globalizado ao serviço de um mercado sem alma e sem carácter. O mundo vive fora da sua dimensão social de bem comum. Bem isto a propósito da realidade política do nosso país.
Onde parece que não existe uma noção clara de limite e de fronteira na vida pública. Parece que estamos perante um novo leviathan, que diaboliza e esconjura tudo aquilo que é diferente, alternativo e critico perante um status quopolítico que bloqueia, que ameaça, que ultrapassa claramente as fronteiras da sua acção e praxispolítica. A vida pública tem sido palco de situações, de casos extremamente complexos que colocam em causa o bem estar social, o normal funcionamento das instituições democráticas e enfraquecem a nossa democracia.
O processo da casa pia, o processo freeport, o processo face oculta, entre outros tantos. Estes fenómenos no fundo resultam de uma sociedade assimétrica, onde os que estão por cima, sempre viveram em grande impunidade e sempre gozaram de uma grande protecção económica e política. À sombra dos poderes da republica estas personalidades foram construindo teias, redes, lobbies, ampliando influências e estratégias que de forma tentacular se iam ramificando em células difusas, silenciosas, dominando tudo e todos. Desde os media, aos partidos políticos e chegando também ao mundo económico e financeiro da propria banca. A opinião pública já fala destes assuntos no café, na escola, na rua e nos media. Faltavam as provas, os casos, os momentos, os actores. Compete àjustiça defender o estado de direito, fora de jogos jurídicos e fora dos formalismos da retórica do direito.
Eis que aparecem inquéritos judiciais, prisões, interrogatórios, nomes, rostos, advogados, carros de grande cilindrada às portas da judiciária e dos tribunais. Gente grande, ilustre, bem vestida e honoravél. Pessoas de bem, que até esse momento decidiam, governavam e aplicavam os dinheiros públicos. No fundo, fica a ideia de que o estado da nação é crítico e preocupante, mas não podia ser de outra forma.
Com esta corja a governar, a liderar, a decidir…que se poderia esperar desta gente? Fica pelo menos a lição a tirar desta triste situação nacional, o estado tem de definir estratégias e arranjar instrumentos que possibilitem os lugares do topo da nação aos mais capacitados, aos mais honestos, a uma espécie de inteligência instruida e doutrinada dentro de uma ética e condição humana de limite e de fronteira.
Mesmo, que isso, implique mais instrumentos judiciais, mais provas, mais cidadania e mais informação e jornalismo critico e acutilante. Todos estes casos, todos estes fenómenos são uma excelente oportunidade para aprofundarmos a nossa democracia e acabar com todos estes canceres que corroem a sociedade de forma transversal. Uma peste que começa no local e acaba no global.
A corrupção mina a sociedade, mina a democracia desacredita as sociedades e proporciona o aparecimento de fenómenos populistas. Todos estes casos demonstram como o nosso país durante décadas foi desgovernado e esteve ao serviço de interesses que não a economia social e o bem publico. Tivemos um país, um território em constante estaleiro de obra pública, desde as auto-estradas, os estadios, as barragens, os equipamentos, as infra-estruturas, os metros, as expos, as capitais da cultura, as casas da musica, os auditórios, etc.etc. Um maná para todos aqueles que especulavam, que agiotavam, que de mais-valias em mais-valias, alimentavam poderes, interesses e clientelas.
Onde as promiscuidades entre o sector económico-financeiro e a vida politica e pública se confundiam de forma descarada, sem pudor e sem limites. As fronteiras desapareciam, os limites entre a acção política e o mundo financeiro esbatiam-se e confundiam-se.
A promiscuidade chega também ao mundo da imprensa e da informação em geral, com relações complexas entre gabinetes ministeriais e redacções de jornais nacionais, regionais e locais. A irracionalidade é total, levando a situações de verdadeira ruptura social e política.
Estamos num caco, não podemos descer mais, agora fica-nos a vontade de renascer das cinzas.
Construindo um país, uma nação, uma sociedade do grau zero. Tanto foi o mal que fizeram ao meu país.
do fmr